quinta-feira, 9 de julho de 2009

Amor X Gripe suína


Quero espantar um pouco desse pessimismo crônico que anda rondando os meus dias. Hoje eu acordei pensando nisso que todo mundo anda pegando. Não, não estou falando de gripe suína, é de amor mesmo. Parece que ele resolveu atacar as pessoas mais incapacitadas e neuróticas possíveis, virou assunto da semana, desses que a gente discute numa mesa de bar com os amigos. Tem gente que diz que ele se parece com o hippie que mora ali na esquina (convenhamos que se for ele, ai Meu Deus!), outros dizem que ele é o tal cara casado com Psique, Camões dizia que ele é um “fogo que arde sem se ver”, Mário que o Amor é a amizade que nunca morre, Vinicius dizia que era Fantasia, Chico que “o amor é um veneno medonho”, Arnaldo diz: “Amor é prosa”, Rita Lee afirma “é um livro”. É, tem gente que diz que o amor é Deus, que se apresenta em forma de crepúsculo ou eclipse lunar.Tem gente que chora,que sorri e até que mata por amor.Outros,como Carmem Miranda dizem que :-“ Quanto mais se bebe mais a sede aumenta”,a quem diga que o amor é doce,feio,desarrumado,sincero,descomprometido,que pode-se viver dele,que se pode amar em cada verso,despedida ou ausência. Eu não sei, tenho dificuldade em dizer algo sobre, eu só posso dizer que o contágio é fatal, é transmitido de pessoa pra pessoa, sem hospedeiro definitivo e seus efeitos colaterais tendem a piorar dia após dia. A todos que não estão interessados em algo que pode te deixar de cama por dias, que pode lhe arrancar a razão e que lhe fará dizer coisas bobas e maçantes, eu deixo o meu aviso:

Corram à loja mais próxima e adquiram já suas máscaras de proteção.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Ela vem subindo a rua



Foi subindo sem pressa a ladeira. O vento desfazia o penteado que ela levara alguns minutos para arrumar, era o vento que trazia as cinzas do verão passado (daquele que lhe marcara profundamente a ferro e fogo), era a brisa que não lhe dava conforto, que arrancava com força o abraço que espantava verdugos. O vento retornava balançado o cabelo, sem pedir autorização enquanto ela subia em direção a um lugar que ainda não sabia o nome.Ela sempre dizia:"Maldita fúria dos deuses". Durante algum tempo o vento parava e ela só podia ouvir os gritos que saiam do lado direito do peito (já que o esquerdo estava muito ocupado). Aproximadamente às seis da tarde quando os demônios povoavam-lhe a mente, ela pedia colo (implorava, pra ser exata), de qualquer um, fosse quem fosse que espantasse de uma vez por todas aquele medo que lhe arrancava o brilho dos olhos. Enquanto pensava assim sentia-se como louca, queria voltar para uma casa que ela não tinha e não sabia até que ponto estaria assim.

Continuou andando sem direção, fizera questão de não recordar o caminho. Não, não estava alucinada (disso ela não gostava de se meter), bastavam os poucos amigos que tinha para que ela se sentisse possuída de euforia e vida. Vagando naquela linha (nada tênue) de pensamento acabou tropeçando num senhor estirado na calçada. Maltrapilho, com chinelos velhos e bancos de papelão. Ele segurava uma xícara de café (ganhada de um bom samaritano que por ali passara). O velho balbuciou algumas palavras, não estava embriagado, mas ela não entendia o que dizia, talvez porque estava compenetrada nos olhos, brilhantes como labareda de fogo, que lhe diziam algo sem que o senhor precisasse abrir a boca. Ambos permaneciam em silêncio, ele tinha cara de doador de abraços e colos e ela talvez possuísse o que ele precisava.

-Quer café?- disse ele

Ela teve um sorriso. Continuo encarando-o, maltrapilho, com cabelos grisalhos. Apertou-lhe a mãe vigorosa e tirou da sacola o que ele supostamente queria. Sanduíche de mortadela, puro e simples.

Acendeu um cigarro, os velhos demônios estavam calados dentro dela e pela primeira vez em muitos meses o vento desviara o seu percurso.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Tal qual peixe de feira


E todo mundo procurava entender a gritaria que vinha do quarto trancado a sete chaves. O barulho das janelas que trincavam e se partiam em mil pedacinhos, ninguém entendia o porquê. O dia era cinza, desses em que se espera chuva ou filmes da tarde que façam chorar. Dava-se para ouvir o tilintar das folhas que se arrastavam na calçada, e lá dentro do quarto estavam as duas. Ambas gritavam em bom e alto som, competiam na voz embora soubessem que apenas a mais velha tinha razão, e não era eu. Eu nunca consigo me meter em encrencas fáceis de serem desfeitas, desde a infância era assim, mas dessa vez aquela mulher me fazia sentir como um peixe enrolado nos classificados de um jornal velho, sempre que me lançava um olhar perturbador e cheio de um sentimento que eu não sabia discernir. E então ela chorou como nunca antes havia chorado e esfregou os olhos com os nós dos dedos. Estava inconsolável e não media as palavras. Ela falava, ou melhor, jogava as palavras como um comerciante que varre a poeira de sua loja. Eu sabia, estava encrencada. Não adiantava quebrar as janelas, os copos, o pescoço. O jeito era encarar os fatos e amadurecer de uma vez por todas.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vermelho

As flores dela murcham em minhas mãos e as pétalas antecipadamente vão caindo, forrando o chão que antes estava abatido. E logo lá vem ela sem prumo num desoriento tremendo, tropeçando nas flores estendidas pelo caminho. E cá estamos escondidos, voltando ao início da história, realinhando relógios e atrasando as horas como se não existisse um relógio escape por entre as ruas da vida.

Eu digo em voz alta: - Quem bate na porta?Quem está me passando medo?

Pena que o disfarce dura em sim poucos segundos de vida, logo as pernas já estão bambas e a face molhada pelo suor e os terrores noturnos. É eu não posso me enganar. Que me atrasem as horas também, que risquem as cartas e testamentos, que apaguem a memória da dama de vermelho por que por mim, deixe-me viver até perder a contagem das primaveras.