quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quem irá me proteger?


Fui logo jogando o sapato para o lado, abrindo o zíper da jaqueta, desestruturando

o resto dos cachinhos mal arrumados. E então eu me sentei aqui, nessa cadeira que já é um pouco cama, sofá, e apoio para os pés. Sentei-me aqui para colocar as ideias no lugar, já que ultimamente metade delas anda brincando de pique - esconde comigo. Ou será que eu ando brincado de pique – esconde com elas?

De uns tempos pra cá muito coisa anda se escondendo de mim. São os sentimentos, o vento, os amigos. E todo mundo sabe que eu perco o norte muito fácil, que me desloco assim do nada, por coisa alguma. Todo mundo sabe que eu tenho medo de conceitos prontos, de programas repetidos, de pessoas que não mudam nunca. Eu tenho medo de casamento, de solidão aos domingos, do vento que assobia na minha janela. Morro de medo de não terminar mais um calendário, ou de despachar bons ‘partidos’. Tremo na base quando falam de morros uivantes, números ímpares, olhar fugaz, distância, geometria analítica, velhos amores, futuros amantes, beijos repetidos, barulhos da madrugada, declarações inusitadas, animais não domesticados, borboletas assassinas, homem sanguinário, mal entendido, unhas vermelhas, sangue nas paredes e etc.

E depois quando digo: “não me deixe só, eu também tenho medo do escuro”, metade das pessoas não acredita.


sábado, 26 de dezembro de 2009


Eu tomo remédio.

Não é sempre, eu confesso. Deve ser por isso que as noites às vezes me deixam tão serelepe. O que me encabula é que dia sim, dia não, tenho sempre um humor escancarado, aberto, que logo desaparece no dia seguinte. É meio pílula mesmo, movida a sentimentos felizes, tristes e possíveis fatos.

Remédio pra lá, remédio pra cá. Fico brincando para ver se faz sentido. Eu anoto tudo, fantasiando as várias possibilidades de encaixe, no meu pensamento, no meu corpo, e tentando adivinhar um dia para cada coisa. Parece um pensamento safado, desses que lhe passam a mão, parece até pecado. Mas não é, eu sei que é apenas uma ideia engraçada, coisa indecente, mas boa.

'Ao amor, o velho, danado, conhecido e desconhecido amor que provou mais uma vez, como parece que o fará até o final dos meus dias, quem é que manda aqui.'

Elisa Lucinda

Deixa isso pra lá.


‘Lá vou eu, lá vou eu’. Acho que estou envelhecendo rápido demais. Quem foi que disse que a gente não pode ter uma criança interna quando vira adulto, hein? Tem uma porção de coisas que eu ainda não entendo, sai ano, entra ano e algumas coisas não mudam. É um desejo eminente (persistente) de ficar. Mas ‘deixa isso pra lá’, deixa. Tenho coisas, atitudes e pessoas que não me cabem mais. Dessas que a gente engole a seco, e sente a garganta arranhando. E também tem aquelas que fazem o seu coração disparar, que tolo! Ele mal percebe o aviso de: ‘mantenha distância’.

Ultimamente ando assim, desconfiada, duvidosa, incerta, como um investigador criminal, com direito à trilha sonora. Então eu fico perambulando pela cidade, com ar de quem procura algo. E a noite se torna minha porta de entrada, para um mundo menos humano, menos banal e mais belo. É tanta beleza que chega dói aqui dentro, é como sentir que estou vivendo para esse momento, monótono, maduro e meio poético.

É, estou envelhecendo rápido demais. Tenho medo disso, morro de medo dos pedaços que saio deixando por ai, noite adentro, tenho medo de deixar o pedaço errado, para as pessoas erradas, àquelas que não me cabem mais, entende?

Penso, às vezes, que morrer não está nos meus planos. Nenhum tipo de morte. Eu não quero chegar ao ‘fim do expediente’.

Mas ‘deixa isso pra lá’, deixa.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Amor é síntese


Por favor não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise profunda
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém
consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito amor.

(Mário Quintana)

Um capítulo sim, outro não.


Para começar assim de uma hora para outra, sem perder o fio da meada, eu fiquei remoendo as palavras (uma a uma) e costurando-as pela noite adentro. Eu me dei conta que já não posso manipulá-las ou entendê-las na mesma rapidez que fazia há meses atrás. Lá de fora (onde a falsidade não vigora) eu fui buscar a felicidade, a mesma das novelas mexicanas, com personagens e finais (melosos) felizes.

Chovia, era uma chuva bem fininha, dessas que molham a gente aos poucos e dão de brinde um resfriado. Eu não sabia por onde começar, e era noite (convenhamos que não fosse a hora mais apropriada para buscar a felicidade), mas eu insistente fui bater à porta mais próxima.

Um moço alto e sorridente me atendeu. Parecia até que a guardava ali, perto da lareira. Entusiasmada eu fui perguntando de uma vez e sem escrúpulos.

- O senhor sabe onde eu posso achar a felicidade? –disse eu

Ele se fingiu de desentendido, desconversou e disse que eu não deveria sair por ai perguntando isso às pessoas.

Constrangida, pedi desculpas e sem querer atropelei um monte de palavras que estavam atravessando a rua. Não preciso dizer que elas me fizeram caras e bocas, aquilo me soou como um beliscão. Definitivamente, eu não servia para essas coisas.

Continuei subindo a rua até que me sentei na calçada, eu ainda tinha aquele bloco de papel e um conjunto de versos escritos na noite passada. Aquilo já era o meu começo de drama mexicano, eu representava o papel de protagonista, que chora um capítulo sim, outro não. Estava chegando perto da felicidade, tinha certeza disso. Acabei pegando no sono e quando acordei já era manhã, bem cedinho. Tudo não passava de um sonho, meu texto recém escrito (e amassado) estava debaixo do travesseiro, com a frase de sempre destacada no canto da folha:

‘A minha felicidade está sonhando. ’

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Confiança...


quando você perde,o resto não tem volta.