segunda-feira, 29 de março de 2010

O que eu tenho a dizer sobre os hospitais


Paredes brancas.

Lençóis de cores mortas pra contradizer as flores recém-chegadas

Pacientes e aventais com cheiro de coisas novas.

Não é permitida a entrada de acompanhantes sexuais.

Álcool em gel em todas as extremidades.

Horário marcado com médicos que não gostam de relógio.

Cantadas de pedreiro também acontecem entre os enfermos.

Carne de panela e gelatina azul no café-da-manhã.

TV a cabo, tédio e ‘caso Isabela’ nos domingos de paz.

O que uma porcaria de hérnia não faz?

Conhecer enfermeiras por nome e sobrenome.

E as agulhas então... “agora é que são elas”.

Pra não dizer que não tenho coisas boas a falar sobre hospitais:

o jeito como afofam os travesseiros... é demais!

sábado, 20 de março de 2010

Não me diga que o mundo anda mal.

Ele não estava debaixo da cama, nem da escada. Não foi guardado na dispensa de alimentos, não estava em cima do telhado, nem dentro do livro mais antigo. Ele não se escondia nos lagos, não vivia com os cavalos e nem se afogava nos oceanos. Não cabia na carteira, não se sentava à mesa, nem ficava conversando no portão. Quando criança não atirava pedrinhas nos pássaros, não se lambuzava com as mangas roubadas do Sr. Miguel e nem cometia pecados depois da missa.

Deus não dava sinal de vida desde a década de 80. Não aparecia nas manchetes dos telejornais, não estava no púlpito das igrejas, menos ainda em um quarto de hotel. Não conseguíamos entrar em contato com Ele. Ele não atendia telefonemas e também não respondia aos e-mails.

Mês passado decretaram: - Deus está se aposentando!

Depois do choque, do ‘chororô’ danado, das crianças com olhos vermelhos, das senhoras cantando uma triste canção, dos cachorros choramingando sem parar, dos doentes perdendo a fé... Deus começou a se mostrar. ‘Vezenquando’ acenava de longe, sorria um sorriso de menino (que só os que o procuravam conseguiam ver). Balançava crianças de rua nos balanços da praça, pela manhã trazia frutas aos desabrigados, ajudava senhores a atravessar na avenida, acrescentava feijão nas panelas com alguma escassez, fazia chover nas plantações, reconciliava casais, protegia mulheres que voltavam do trabalho à noite e sumia de novo. E no fundo todo mundo tinha medo de encontrá-lo.


quinta-feira, 4 de março de 2010

Há Há Há Há Há!


Acordar de bom humor é som querer, mesmo quando você não dorme tão bem. Mesmo quando se levanta às 8 da manhã escutando o latido esganiçado de um cão (feliz). E logo depois faz um trabalho enorme da disciplina que você mais odeia. Daí então como o dia amanheceu feliz, e a lei de Murphy te abraçou de jeito, você pega a chuva que caiu em regiões localizadas. Entra num ônibus lotado e mau cheiroso. Chega atrasada à faculdade. Derruba refrigerante (e não pode ser qualquer um, tem que ser Coca cola que é pecado desperdiçar) na roupa. Usa banheiro sem porta (e papel). Afunda o pé na lama. Escutando uma ‘bela’ cantada de pedreiro. E mesmo assim, com tudo isso, chega sorridente em casa . Porque afinal, o ‘importante é rir da vida’.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A minha história vai virar novela


Choro que não cabe no peito. Palavras afiadas e mesquinhas. Roupas velhas e amarrotadas. Saudade ofensiva. Falsidade. Culpa. Medo. Apego. Zelo. Falta de tempo.

Só por hoje me deixei levar.

Eu não sorri pra ninguém, não me levantei para outro sentar. Não reparei seus olhos ou seu cabelo. Não segui a dieta. Não chamei atenção. Não pedi abraço esperando calma. Nem arredei o pé de onde já estava.

Hoje cortei a corda bamba. Dei de ombros. Fingi que não existia. Não te contei novidades, nem esperei você chegar.

Hoje não pedi a sua mão e nem o seu amor.

Não pedi mesmo, eu não merecia. Hoje eu senti falta de mim, de viver com aquele sentimento que dá medo e vem me encorajar.

Hoje eu simplesmente fiquei de costas, que é pra ir embora sem sair do meu lugar.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

História sem fim

Ela se balançava na cadeira, naquela de cor antiga e com peças enferrujadas.

Tinha cara de quem pouco viveu, de gente sofrida, marcada a ferro e fogo.

Eu logo fui me compadecendo. Tenho dessas coisas. Identifico-me ao longe com pessoas mal-amadas, solitárias e cheia de traumas. Parece que havia algo nela que falta em mim, ou vice-versa.

Permaneci assim por alguns minutos. Ela sorriu um sorriso meigo e cheio de dentes amarelos, mexeu as trancinhas do cabelo e se levantou num salto só.

Caminhou em minha direção, deu seus pequenos passos de menina levada, sentou ao meu lado na calçada da casa. Ficamos lá, ambas sem dizer uma palavra. Encarávamos o céu como quem espera chuva ou uma nave alienígena.

Ela lembrava minha infância. Respirava fundo pelo nariz. Tinha os cotovelos arranhados de tanto apostar corrida no meio fio. Cicatriz no joelho, possivelmente de queda de bicicleta. Usava sapatos fechados, daqueles que se usam em dia de missa. Carregava uma boneca descabelada na mão direita. Barra do vestido recém descosturado.

Na calçada, naquela de tijolos amarelos, a gente se observava. Eu sentia como se estivesse sendo lida, como se ela pudesse escutar tudo o que eu pensava, se é que eu pensava em alguma coisa naquele momento, era como se estivesse nua, eu não podia mais guardar os meus segredos. E talvez não precisasse, ela sorria como se entendesse cada um deles. Pegou a minha mão com aqueles pequenos dedos, deu seu aperto de criança (como que para me dizer que estava presente) e desapareceu como um amigo imaginário.

Até hoje não sei dizer quem era, talvez fosse a morte querendo dizer que ainda não chegara a minha vez. Talvez fosse mais uma dessas alucinações que tenho quando não durmo há dias, ou quem sabe fosse mesmo ela, Alice.


Aos poucos vou envelhecendo, a raiz do meu cabelo já começa a demonstrar uns poucos fios brancos. As olheiras mostram noites mal dormidas e cansaço. As cicatrizes, os furos, os velhos medos. A falta de nexo, a dificuldade de raciocínio, a fraqueza e franqueza, os beijos repetidos, as palavras copiadas e o caráter já formado.

Eu estou envelhecendo, por dentro. Pessoas já não fazem meu estilo, não tenho paciência para discussões vãs, não me interessa a situação política do meu país, não me atenho mais às coisas banais, não desperdiço meu sangue ou meu tempo, não dou à mínima, não me alimento direito, não perco tempo no telefone, não leio revistinhas adolescentes, nem me preocupo com antigos amores, não me surpreendo com atitudes, nem ouço o coaxar dos sapos.

Eu envelheci rápido demais em três meses. Andei por outros caminhos. Conheci outras pessoas. Poupei-me de velhos hábitos. Reli livros antigos. Experimentei outros sabores.

Presenciei novas histórias. Enxerguei com outros olhos.

Fui envelhecendo aqui dentro, sendo a melhor pessoa para mim (mesma), por isso eu não peço que entendam, não peço que perdoem minha ausência, minhas palavras afiadas, ou descrença em algumas pessoas... Eu apenas não perco mais tempo com tantas preocupações.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Procura-se um amigo

"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive ".