domingo, 11 de julho de 2010

Toc toc


Quando dei por mim as coisas já tinham acontecido, sem muita explicação. Eu já estava desnorteada, trêmula e com 110 batimentos cardíacos por minuto. Assim que o amor voltou a me pregar peças (nessa ladainha de ir e vir sem pedir permissão), a vizinhança teve muito que comentar. Constantemente ele me acordava de noite jogando pedrinhas na minha janela.
Eu gritava: - Seu moleque! Vá acordar a mãe.
Era a única maneira de voltar a dormir. Outro dia, sem querer, tropecei sobre ele na calçada de casa. Envergonhada, pedi um milhão de desculpas e dei de costas. Meses depois, quando eu imaginava que ele tivesse desaparecido ou sido adotado, a campainha começou a tocar. O tal do amor estava lá de novo, dessa vez tinha nos olhos uma beleza que eu desconhecia. Estampou um meio sorriso e me perguntou:
- Moça, eu posso entrar?
Desde então, nunca mais me deixou.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

- Afogando as mágoas?

-Não! Estou curando as feridas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Insônia


No relógio o ponteiro quase marca meia noite. Eu não durmo, essa coisa que me cutuca o pé do ouvido não me deixa dormir. E quando não é isso, é aquilo e aquilo outro. Eu curtia os meus fins de semana sem medo, sem ter que fazer o escarcéu dentro de mim a cada oito horas. Agora não, é sempre essa linha limítrofe, que não me permite chegar ao outro lado. Em cima da mesa os objetos usados para a travessia, um velho copo com dose dupla de uísque, cigarros baratos, guardanapos sujos e rabiscados com lembretes do dia. Tudo sem cor, meio morto, meio banal. Palavras desgastadas, camisa mal passada e roída na gola. Cabeça cheia de pensamentos importunos. Nada de pregar os olhos. E não me venha com costuras, eu não me dou bem com agulhas e linhas!

domingo, 6 de junho de 2010


Levara alguns minutos abrindo à porta. A chave se encrencara dentro e a maçaneta nem se movia. Enquanto isso, as lágrimas rolavam soltas sobre a face cansada. Estava fugindo do mundo, há três meses juntava dinheiro para a passagem de ida. Não tivera tempo de se despedir dos amigos e daqueles que suponha ter algum tipo de vínculo. Não era importante, depois mandaria cartões postais de onde estivera e pluff!

terça-feira, 30 de março de 2010

Um barzinho, um violão.


Sentados à mesa, fim de tarde, com um cara no canto tocando João Gilberto. Cá estávamos nós, pernas inquietas, intertextualidade de filmes, livros e piadas (coisas que só a gente consegue fazer). Depois de tudo isso, já meio alterados (eu confesso), surgiu a pergunta:

-Você já traiu?

- Ahn? – respondi como se quisesse fugir, embora conhecesse bem a figura. Não se contentaria com caras e bocas e um possível sorriso sinistro.

- A pergunta é simples. Você já traiu alguém? – tornou a dizer.

- Pergunta simples para uma resposta complicada. - falei freneticamente – Eu não gosto muito de conversar a respeito, mas já que estamos aqui, eis o fato:

Sim, eu já traí.

(Poucos segundos de silêncio)

- Deixe-me contar as minhas nuances, antes que você piore ainda mais a imagem que tem de mim – disse com um sorriso lerdo – Acho que todo mundo já cometeu esse (e outros pecados). Eu então... faço-o com certa constância. Já me traí várias vezes. Deixei de lado princípios que tinha, coisas que acreditava. Chorei por outra pessoa no colo de alguém com quem eu namorava. Traí meu time de futebol (isso na época que eu gostava de futebol), traí a confiança dos meus pais e etc. Traí sim e também fui traída.

(Ele fez cara de quem não gostou muito e de quem ainda esperava o desfecho da história)

- O quê? Eu já te contei essa né. Vamos virar a página. Hoje já não tem importância, importava antes, quando existia amor. – continuei – Agora você se lembrou né? Eu lá em cima do edifício, toda compenetrada e você... Você me aparece do nada dizendo:

- Calma amiga. Lembre-se que você tem chifres e não um par de asas.

(Risos escandalosos)

- Você me salvou naquele dia – disse em voz alta – Se você não tivesse traído sua namorada e me procurado para contar o feitio... Deixa quieto.

A noite vinha se apresentando. E “Doralice eu bem que te disse, essa embrulhada em que vou me meter [...]” tocava ao fundo embalando o final da conversa. Brindamos. Afinal amigo também é um pouco filho da puta.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O que eu tenho a dizer sobre os hospitais


Paredes brancas.

Lençóis de cores mortas pra contradizer as flores recém-chegadas

Pacientes e aventais com cheiro de coisas novas.

Não é permitida a entrada de acompanhantes sexuais.

Álcool em gel em todas as extremidades.

Horário marcado com médicos que não gostam de relógio.

Cantadas de pedreiro também acontecem entre os enfermos.

Carne de panela e gelatina azul no café-da-manhã.

TV a cabo, tédio e ‘caso Isabela’ nos domingos de paz.

O que uma porcaria de hérnia não faz?

Conhecer enfermeiras por nome e sobrenome.

E as agulhas então... “agora é que são elas”.

Pra não dizer que não tenho coisas boas a falar sobre hospitais:

o jeito como afofam os travesseiros... é demais!

sábado, 20 de março de 2010

Não me diga que o mundo anda mal.

Ele não estava debaixo da cama, nem da escada. Não foi guardado na dispensa de alimentos, não estava em cima do telhado, nem dentro do livro mais antigo. Ele não se escondia nos lagos, não vivia com os cavalos e nem se afogava nos oceanos. Não cabia na carteira, não se sentava à mesa, nem ficava conversando no portão. Quando criança não atirava pedrinhas nos pássaros, não se lambuzava com as mangas roubadas do Sr. Miguel e nem cometia pecados depois da missa.

Deus não dava sinal de vida desde a década de 80. Não aparecia nas manchetes dos telejornais, não estava no púlpito das igrejas, menos ainda em um quarto de hotel. Não conseguíamos entrar em contato com Ele. Ele não atendia telefonemas e também não respondia aos e-mails.

Mês passado decretaram: - Deus está se aposentando!

Depois do choque, do ‘chororô’ danado, das crianças com olhos vermelhos, das senhoras cantando uma triste canção, dos cachorros choramingando sem parar, dos doentes perdendo a fé... Deus começou a se mostrar. ‘Vezenquando’ acenava de longe, sorria um sorriso de menino (que só os que o procuravam conseguiam ver). Balançava crianças de rua nos balanços da praça, pela manhã trazia frutas aos desabrigados, ajudava senhores a atravessar na avenida, acrescentava feijão nas panelas com alguma escassez, fazia chover nas plantações, reconciliava casais, protegia mulheres que voltavam do trabalho à noite e sumia de novo. E no fundo todo mundo tinha medo de encontrá-lo.