sábado, 21 de agosto de 2010

Viajando no submarino amarelo


To cansada de materializar as coisas. Primeiro foi a paixão, o sorvete, as coisas que eu trouxe com a abertura dos portais, o vento e o devaneio. Já faz algum tempo que eu queria dizer isso. Odeio essa necessidade viril de fazer surgir coisas, esse sentimento incansável de dar vida (mesmo que seja na imaginação) ao que não pode existir. De onde o sentimento saiu também jorra outras fantasias, sem que seja preciso seguir uma linha tênue de raciocínio. Claro que no lugar onde vivo nada tem muito nexo ou encaixe, é como se surgisse de uma explosão semelhante à teoria do Big Bang. Garanto que o que estou dizendo será compreendido, as próprias palavras vagas e fugitivas justificam a teoria sem ter medo de ser feliz. “Loucos” assim não fazem mal à sociedade, também não estão dispostos a perder uma grande quantidade de tempo com homens ou vermes (tanto faz). Parece até que estou chapada ou louca, mas não é verdade. Bem, meu teste psicológico não alegou nenhuma anomalia. Até consegui ver os dois frangos dançando tango, o morcego andando de bicicleta e os bichinhos no submarino amarelo, enfim... Coisas assim eu não consigo materializar, nem mesmo Mefistófeles traria ao mundo algo tão bizarro.

segunda-feira, 19 de julho de 2010



Quero um balão pra poder subir (...)

domingo, 11 de julho de 2010

Confissões e Virginia Woolf


Há quem tenha marcas na parede de casa, de todas as espécies, achatadas, redondas ou em forma espiral. Há quem acredite que elas pertenceram aos antigos donos, aos rastros de caracol ou às mariposas esmagadas na calada da noite. Seja de quem for a culpa, há sempre uma marca. Como de praxe, existe uma no meu quarto, bem ao lado do ventilador de teto. Penso que ela seja mais bizarra que o normal, com alguns contornos esdrúxulos e cores mortas (poeira, talvez?). De vez em quando, ela aparece em outros tamanhos. A primeira vez que a vi, foi no dia em que completei doze anos de idade. No início eu me assustava com a marca, com a baleia (pra ser exata), pronta pra me dar um abraço. Eu corria para a cama dos meus pais, aquela época o bicho papão estava no auge, acabei associando-a a ele. Depois de um tempo ela já não me parecia tão ameaçadora e agressiva. Conversávamos por oras a fio, ou melhor, eu falava enquanto ela me ouvia. Nesse laço intrínseco, acabei me esquecendo que ela não passava de uma marca (ou mancha) qualquer, que me visitava sempre que podia. Hoje, com meus quase dezenove anos, a marca está desaparecendo.

(...) E não preciso dizer que estou indo dormir na cama com os meus pais.

Toc toc


Quando dei por mim as coisas já tinham acontecido, sem muita explicação. Eu já estava desnorteada, trêmula e com 110 batimentos cardíacos por minuto. Assim que o amor voltou a me pregar peças (nessa ladainha de ir e vir sem pedir permissão), a vizinhança teve muito que comentar. Constantemente ele me acordava de noite jogando pedrinhas na minha janela.
Eu gritava: - Seu moleque! Vá acordar a mãe.
Era a única maneira de voltar a dormir. Outro dia, sem querer, tropecei sobre ele na calçada de casa. Envergonhada, pedi um milhão de desculpas e dei de costas. Meses depois, quando eu imaginava que ele tivesse desaparecido ou sido adotado, a campainha começou a tocar. O tal do amor estava lá de novo, dessa vez tinha nos olhos uma beleza que eu desconhecia. Estampou um meio sorriso e me perguntou:
- Moça, eu posso entrar?
Desde então, nunca mais me deixou.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

- Afogando as mágoas?

-Não! Estou curando as feridas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Insônia


No relógio o ponteiro quase marca meia noite. Eu não durmo, essa coisa que me cutuca o pé do ouvido não me deixa dormir. E quando não é isso, é aquilo e aquilo outro. Eu curtia os meus fins de semana sem medo, sem ter que fazer o escarcéu dentro de mim a cada oito horas. Agora não, é sempre essa linha limítrofe, que não me permite chegar ao outro lado. Em cima da mesa os objetos usados para a travessia, um velho copo com dose dupla de uísque, cigarros baratos, guardanapos sujos e rabiscados com lembretes do dia. Tudo sem cor, meio morto, meio banal. Palavras desgastadas, camisa mal passada e roída na gola. Cabeça cheia de pensamentos importunos. Nada de pregar os olhos. E não me venha com costuras, eu não me dou bem com agulhas e linhas!

domingo, 6 de junho de 2010


Levara alguns minutos abrindo à porta. A chave se encrencara dentro e a maçaneta nem se movia. Enquanto isso, as lágrimas rolavam soltas sobre a face cansada. Estava fugindo do mundo, há três meses juntava dinheiro para a passagem de ida. Não tivera tempo de se despedir dos amigos e daqueles que suponha ter algum tipo de vínculo. Não era importante, depois mandaria cartões postais de onde estivera e pluff!