Eu sempre soube que chegaria a minha vez de cometer loucuras, de ter surtos ou piorar as minhas crises existenciais. O esperado era que tudo isso viesse me acompanhar ao logo da aposentadoria “rechonchuda” que eu ganharia com meu cargo de professora. É claro que estou ironizando, bastar-me-ia boas companhias e um bom sanduíche com patê que eu ficaria bem, mesmo sem a tão chamada boa aposentadoria. Esse era o plano, eu não esperava correr feito louca atrás dos pombos com migalhas de pão, também não esperava recitar poemas em uma língua que não conheço direito ou me apaixonar pela pessoa mais complicada do mundo. Infelizmente os atos aconteceram mesmo sem previsão, depois vieram às longas noites de insônia à procura de um bicho de estimação perfeito (que de preferência não fosse um peixe), crises de choro ainda maiores do que as que eu tinha, medo do telefone quando toca, bloqueio criativo nas horas mais indevidas. É, eu soube que estava começando a surtar. Essa vontade doida de fazer coisas indevidas, acordar na madrugada pra fazer listas ou ir ao teatro só pra rir dos meus caros amigos, retroceder no meu estilo musical, começar a conversar com a minha irmã, aprender a me maquiar, a bordar e usar vestido de bolinhas.As coisas não andam muito bem,percebem?Estou começando a me sentir parecida com a velha senhora da esquina, cabelos grisalhos, casacos de frio e novelas da sete, a diferença é que a beata vive de festa pelos cantos, joga truco com os senhores da caminhada e visita os amigos todo fim de tarde, e eu... Eu apenas passeio pela praça e recito poemas inacabados.
-Se ele perguntar o meu nome,não saberei dizer. –disse . Falando sozinha mais uma vez.
Chutando pedrinhas, comendo coisas proibidas, conversando com estranhos, cabulando compromissos, admitindo erros que não são meus,chorando por sonhos que nunca existiram,alimentando animais que eu não gosto ou apenas gostando de pessoas egoístas.Ainda não fui apresentada a mim, quanto mais ao homem prateado de sorriso intrigante.
Eu ainda não conheço o meu nome, talvez seja Impulso, Desejo, Vergonha (ou a falta dela), talvez seja Risco, Desrespeito ou quem sabe apenas um espaço em branco que se encontra logo após a palavra aluno, candidato, remetente ou responsável. Com esses eu não me contento, não me atrevo a aceitá-los de boca fechada.
Se ele perguntar o meu nome vou dizer: - O meu nome é... Eu.
Daí irei me perguntar:- Se eu fosse eu como seria?O que eu faria?
“Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar.”
Lembrei de Clarice,chamei o garçom e lhe pedi outra xícara de café expresso.
*Minha intenção não era me condenar.Sabe como é,eu tenho uma certa consciência ecológica e até uma simpatia com o boi mas eu caí na tentação. Afogando as mágoas com um Big Mac. (hahahaha)
*Se eu disser que ela está errada, logo adiante ela vai jogar todas as coisas na minha cara (incluindo talheres e sapatos alheios). *Debater, de cara feia, sobre a bagunça do quarto e perceber que se continuar assim alguém vai ter que dormir no sofá ou então vou colocar um varal com um lençol dividindo o quarto ao meio. *Dizer que Robert Pattinson não é um cara muito bonito e esperar que ela não inclua coisas vencidas no meu cardápio do café da manhã. *Interrompê-la enquanto faz contas de cabeça, soltando a seguinte frase: “- Mana, olhe só como aquela mulher é gorda”! *Cantar músicas dos anos 60 enquanto ela tira a minha sobrancelha à força e esperar sair com elas retas e impecáveis. * Ofender a Ana Rita (a cachorrinha) enquanto minha irmã estiver presente. *Esconder barras de chocolate, caixas de toddyinho e acreditar que ela não vai encontrar e que não vai dividir os meus mantimentos com a “cachorrinha do coração”. *Esperar que ela me ajude com algo da faculdade ou que informe à minha mãe que vou chegar tarde em casa (consequentemente quase ser deserdada da família). * Alegar que eu não durmo enquanto a porta estiver aberta e pedir que ela não ria disso. *Fazer uma lista pessoal com coisas que ela odeia que eu faço.