quinta-feira, 30 de julho de 2009

- Hold me!

- I can't.

Coisas que rimam com poesia


-Ora Bolas!Quanta fumaça, eu já lhe disse que detesto sair daqui cheirando a cigarro– disse eu. Foi assim que eu peguei o copo em cima da mesa e me dirigi até a varanda. Os olhos seguiam qualquer movimento, viam o senhor que vigiava carros logo na esquina, a criança que corria dos pais enquanto atravessava à calçada, viam o semáforo que parecia estar com algum defeito já que se passaram dois minutos desde que eu estava ali (estava com defeito ou o tempo só estava passando para mim?). Os olhos viam um colega distante que sempre se sentava no último banco do ônibus, o bar em frente que tocava um “sucesso” qualquer, o cadeado que a poucos destravara a bicicleta, (fosse o dono ou não) não havia como discernir a pessoa, os olhos não sabiam nada a respeito do grupo de meninos que pareciam se dirigir ao jogo de futebol mais próximo, também não sabia (na verdade sabiam um punhado de ambos) sobre o grupo de jovens para quem eu estava de costas,sorriam,falavam pelos cotovelos e pareciam estar embriagados. Enquanto os olhos viam e os outros sentidos obedeciam a suas determinadas funções eu avistei (de novo) aquela pessoa que estava parada ao meu lado durante todo o tempo em que eu olhava as coisas, foi então que os olhos pararam de ver e começaram a enxergar...

Eu sorri, ela sorriu e a chuva começou a cair.


Acho que estou ficando doente, por isso fico em casa. Fico em casa porque me acomodo,me atrapalho toda com as calçadas de tijolos amarelos,me perco no meio do caminho (que antes eu conhecia de olhos fechados).Então eu prefiro ficar em casa com os monstros que eu já conheço,e fico correndo de um lado para o outro desafiando o mundo sem sair de casa.É covardia mesmo,ou medo,ou uma certa proteção (que pouco me protege) e que faz de mim àquela senhora que vê a vida passar pela janela embaçada.


(...) ou então visto minhas calças vermelhas e procuro uma festa onde possa dançar rock até cair
_ Caio Fernando Abreu

Pedaços por aí


Sonho, devaneio, mistério

Quem é que pode desvendar?

Aquilo que deixa o ar rarefeito, que me atrapalha a visão

E talvez me faça sentir o que não existe nem em cemitérios.

Mesmo assim os olhos continuam distantes,

E sobra-lhes tempo para sorrir ou cantar

Num frevo qualquer, num ritmo sem pé

Sobra-lhes tempo (Ah! como sobra) para ver aquela fé

(ultimamente) andando sobre cacos de vidro.

-Vc acredita em fantasmas?
-Não!Mas eles acreditam em mim.

[Na Companhia Do Medo]

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Divã

Deitada no divã, essas pequenas lágrimas voltam a molhar o rosto pelas coisas que eu nunca chorara depois de grande. Eu me sinto uma menina, dessas que andam sempre puxando uma boneca pelo cabelo, a diferença é que a minha boneca (careca há algum tempo) não é das melhores companhias e é por isso que eu choro sempre e converso com as paredes. Às vezes as minhas costas doem de tanto me virar ao avesso atrás dessas coisas que eu nem quero encontrar, então me vem sempre àquela tensão e medo de achar os capetas dos sonhos. Solto belas gargalhadas, pois sou meio menino também, dos que são reis e gostam de enfrentar os dragões na terra da imaginação, o problema é que quando apagam as luzes eu choro, menino tem disso. Homem não chora por amor, mas por outras coisas ele chora certeza. Nessas horas o divã (meio ensopado) vai ganhando novo sentido, aparece com certa entonação religiosa e as vezes eu sinto como se recebesse um abraço e a vida ganha um gosto bom. Como pode?Eu caio em mim, deixo de ser criança, o que antes trazia grande incômodo. Acendo a luz e vejo que o bicho papão (o senhor que morava debaixo da minha cama) está aposentado, as bonecas se casaram ou viraram cidadãs em cima de uma Hillux, os dragões agora vivem na lua com São Jorge e os reis estão morrendo de overdose ou tendo paradas cardíacas. E o divã se torna no fundo minha máquina do tempo.