terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Procura-se um amigo

"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive ".

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Desabafo de uma universitária.

Eu sempre quis ser um monte de coisas. Enfermeira, colunista, assistente voluntária.
Já quis ser psicóloga, historiadora, atriz, fotógrafa e uma porrada de outras coisas
que não dão muito dinheiro (risinhos cínicos). Eu já me matriculei em coisas que eu não sabia nem o nome, já tentei desenho, canto, judô, natação. Comecei teatro, balé, jazz, aula de violão. Também já montei blog para revistas, tentei cartoo, lambada e atletismo. Fiz aula de guitarra, ginástica olímpica e oficinas de criação. Entrei numa academia, no sapateado e no samba que é bom. Hoje, abandonei todas essas atividades. Estou meio velha (convenhamos!), não tenho mais pique para tanta coisa, ando cheia de bloqueios criativos, eu nem sei mais o que é coordenação motora, eu perco a paciência fácil e a faculdade me toma todo o tempo.


Cotidiano

Olheiras. Latido esganiçado. Palmas no portão. Você? De novo!
Banho quente para espantar as energias negativas. Perfume novo.

Tulipas amarelas. Escadas empoeiradas. Caixas de papelão. Sereno.

Respiração ofegante. Escadas. Barulho das chaves. Estralar de dedos.

Sorriso lerdo e pontual. Charme. TV desligada. Comida no forno. Frases curtas.

Olhares. Taça de vinho. Arrepio. Quarto. Beijo com a boca de hortelã.

Todos os dias, quase tudo sempre igual.


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Como não terminar com alguém:


Opção número 1:

- Alô.

- Pode falar.

- Acabou. Tô terminando com você.

(Intervalo e silêncio durante quinze segundos, e logo o barulho do telefone sendo colocado no gancho.)




Opção número 2:

Perca de noção do tempo, do espaço. Mãos trêmulas. Falta de ar. Balanço de pernas e estralar de dedos. Coração acelerado e ânsia de vômito. Banheiro. Cadê o banheiro?

Maldito bolo de chocolate com chá!

-Como assim você vai embora? Você não pode ir! Por favor. Não vá embora.

(chorando, me arrastando pelo chão e colocando as mãos na cabeça).

- Estou indo, já arrumei as malas. Veja-as ali, do lado da cama. Não dá mais, eu não agüento mais esse lugar. Esse inferno. Essa confusão. Me deixa seguir a minha vida.

- Eu sabia, foi aquela mulher, não foi? A dos poemas e versos. A que você passava horas no telefone e no escritório, sabe-se lá Deus o que estavam fazendo!

- Tá vendo. Minha Nossa Senhora! Você complica tudo. Não tem nada a ver com a Laura. Tem a ver com você, comigo. Não nascemos para isso. Acabou. Acabou faz um bom tempo e você finge que não vê.

(Pegando uma fita e amarrando o cabelo. Limpando lágrimas com as costas da mão)

- Eu não consigo acreditar nisso. Você quer ir? Então vá ta vendo aquela porta? Saí logo daqui. Não! Desculpa-me. Por favor, não vá embora.

(arrastando ele, puxando-o pela gola da blusa, empurrando malas, trancando portas)

-Eu já fui há muito tempo, você é que não percebeu.

(Ranger da porta se batendo.)


Opção número 3:

- Frango?

- Não! Camarão.

- A gente não combina. [Não temos razão para continuar.]



Opção número 4:

Terminar na manhã seguinte.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Há um caso de amor entre a Aldeia e o Sol

Viver sem você era absurdo, me faltava ar, me faltava uma porção de coisas essenciais. Eu me perdia em cada pensamento insano, banal e provisório. Pra amenizar o estrago, cai na vida com circo. Entre uma acrobacia e outra tentava esquecer o passado.Ouvia falar dos palhaços, das mágicas e mergulhava naquilo até o pescoço. Eu queria me afogar no que eu não conhecia, pra ver se a tal da aspirina tirava a dor absurda e mal-educada. Então eu pintava a cara. Era meu disfarce e eu o via no espelho todas as manhãs. Era uma espécie de metamorfose, em que a reencarnação se dera no mesmo corpo. Quando me vi feliz sem você, eu já não era apenas uma garota. Metade de mim se tornara mulher, a outra era parte libélula. Às vezes eu me cansava de andar e me lançava sem prumo, como alguém que não tem compromisso com muita coisa. Lá de cima eu olhava o mundo com outros olhos, numa outra vida que eu havia comprado, onde não restava mais espaço para você. E quando chegava a hora de dormir, nem sempre a fantasia largava o meu novo corpo, e então nós lutávamos por horas a fio, e eu me rendia ao cansaço e ao sono, imaginando que no outro dia teria me transformado por completo. E no fundo eu era, era eu.

Agora já não me lembro mais do meu primeiro estado, antes desse inferno astral. Também não me lembro do meu primeiro corpo, que fora me deixando como uma casca, como se eu estivesse trocando de pele, de endereço. Não tenho noção de quantos dias se passaram depois que fugi com o circo. Nem de como vim parar nessa aldeia, ou quanto tempo de vida tem o meu menino mais velho. Eu só sei de uma coisa, aquela falta de ar às vezes me vem com força, culpa da bronquite e daquele mestiço ali, aquele do canto, com um meio sorriso e olhos castanhos. Ele é quem me acorda todos os dias, brinca com os meus sonhos, me acaricia as mãos, ordena coisas às flores, planta jardins no meio do cimento, ordenha vacas, retira os espinhos e compõe lindas cantigas de ninar. Depois que o achei perdido por ai, me encontrei de novo.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quem irá me proteger?


Fui logo jogando o sapato para o lado, abrindo o zíper da jaqueta, desestruturando

o resto dos cachinhos mal arrumados. E então eu me sentei aqui, nessa cadeira que já é um pouco cama, sofá, e apoio para os pés. Sentei-me aqui para colocar as ideias no lugar, já que ultimamente metade delas anda brincando de pique - esconde comigo. Ou será que eu ando brincado de pique – esconde com elas?

De uns tempos pra cá muito coisa anda se escondendo de mim. São os sentimentos, o vento, os amigos. E todo mundo sabe que eu perco o norte muito fácil, que me desloco assim do nada, por coisa alguma. Todo mundo sabe que eu tenho medo de conceitos prontos, de programas repetidos, de pessoas que não mudam nunca. Eu tenho medo de casamento, de solidão aos domingos, do vento que assobia na minha janela. Morro de medo de não terminar mais um calendário, ou de despachar bons ‘partidos’. Tremo na base quando falam de morros uivantes, números ímpares, olhar fugaz, distância, geometria analítica, velhos amores, futuros amantes, beijos repetidos, barulhos da madrugada, declarações inusitadas, animais não domesticados, borboletas assassinas, homem sanguinário, mal entendido, unhas vermelhas, sangue nas paredes e etc.

E depois quando digo: “não me deixe só, eu também tenho medo do escuro”, metade das pessoas não acredita.