Ela se balançava na cadeira, naquela de cor antiga e com peças enferrujadas.
Tinha cara de quem pouco viveu, de gente sofrida, marcada a ferro e fogo.
Aos poucos vou envelhecendo, a raiz do meu cabelo já começa a demonstrar uns poucos fios brancos. As olheiras mostram noites mal dormidas e cansaço. As cicatrizes, os furos, os velhos medos. A falta de nexo, a dificuldade de raciocínio, a fraqueza e franqueza, os beijos repetidos, as palavras copiadas e o caráter já formado.
Eu estou envelhecendo, por dentro. Pessoas já não fazem meu estilo, não tenho paciência para discussões vãs, não me interessa a situação política do meu país, não me atenho mais às coisas banais, não desperdiço meu sangue ou meu tempo, não dou à mínima, não me alimento direito, não perco tempo no telefone, não leio revistinhas adolescentes, nem me preocupo com antigos amores, não me surpreendo com atitudes, nem ouço o coaxar dos sapos.
Eu envelheci rápido demais em três meses. Andei por outros caminhos. Conheci outras pessoas. Poupei-me de velhos hábitos. Reli livros antigos. Experimentei outros sabores.
Presenciei novas histórias. Enxerguei com outros olhos.
Fui envelhecendo aqui dentro, sendo a melhor pessoa para mim (mesma), por isso eu não peço que entendam, não peço que perdoem minha ausência, minhas palavras afiadas, ou descrença em algumas pessoas... Eu apenas não perco mais tempo com tantas preocupações.
Eu sempre quis ser um monte de coisas. Enfermeira, colunista, assistente voluntária.
Já quis ser psicóloga, historiadora, atriz, fotógrafa e uma porrada de outras coisas
que não dão muito dinheiro (risinhos cínicos). Eu já me matriculei em coisas que eu não sabia nem o nome, já tentei desenho, canto, judô, natação. Comecei teatro, balé, jazz, aula de violão. Também já montei blog para revistas, tentei cartoo, lambada e atletismo. Fiz aula de guitarra, ginástica olímpica e oficinas de criação. Entrei numa academia, no sapateado e no samba que é bom. Hoje, abandonei todas essas atividades. Estou meio velha (convenhamos!), não tenho mais pique para tanta coisa, ando cheia de bloqueios criativos, eu nem sei mais o que é coordenação motora, eu perco a paciência fácil e a faculdade me toma todo o tempo.
Olheiras. Latido esganiçado. Palmas no portão. Você? De novo!
Tulipas amarelas. Escadas empoeiradas. Caixas de papelão. Sereno.
Todos os dias, quase tudo sempre igual.
- Alô.
- Pode falar.
- Acabou. Tô terminando com você.
(Intervalo e silêncio durante quinze segundos, e logo o barulho do telefone sendo colocado no gancho.)
Opção número 2:
Perca de noção do tempo, do espaço. Mãos trêmulas. Falta de ar. Balanço de pernas e estralar de dedos. Coração acelerado e ânsia de vômito. Banheiro. Cadê o banheiro?
Maldito bolo de chocolate com chá!
-Como assim você vai embora? Você não pode ir! Por favor. Não vá embora.
(chorando, me arrastando pelo chão e colocando as mãos na cabeça).
- Estou indo, já arrumei as malas. Veja-as ali, do lado da cama. Não dá mais, eu não agüento mais esse lugar. Esse inferno. Essa confusão. Me deixa seguir a minha vida.
- Eu sabia, foi aquela mulher, não foi? A dos poemas e versos. A que você passava horas no telefone e no escritório, sabe-se lá Deus o que estavam fazendo!
- Tá vendo. Minha Nossa Senhora! Você complica tudo. Não tem nada a ver com a Laura. Tem a ver com você, comigo. Não nascemos para isso. Acabou. Acabou faz um bom tempo e você finge que não vê.
(Pegando uma fita e amarrando o cabelo. Limpando lágrimas com as costas da mão)
- Eu não consigo acreditar nisso. Você quer ir? Então vá ta vendo aquela porta? Saí logo daqui. Não! Desculpa-me. Por favor, não vá embora.
(arrastando ele, puxando-o pela gola da blusa, empurrando malas, trancando portas)
-Eu já fui há muito tempo, você é que não percebeu.
(Ranger da porta se batendo.)
Opção número 3:
- Frango?
- Não! Camarão.
- A gente não combina. [Não temos razão para continuar.]
Opção número 4:
Terminar na manhã seguinte.
Viver sem você era absurdo, me faltava ar, me faltava uma porção de coisas essenciais.
Agora já não me lembro mais do meu primeiro estado, antes desse inferno astral. Também não me lembro do meu primeiro corpo, que fora me deixando como uma casca, como se eu estivesse trocando de pele, de endereço. Não tenho noção de quantos dias se passaram depois que fugi com o circo. Nem de como vim parar nessa aldeia, ou quanto tempo de vida tem o meu menino mais velho. Eu só sei de uma coisa, aquela falta de ar às vezes me vem com força, culpa da bronquite e daquele mestiço ali, aquele do canto, com um meio sorriso e olhos castanhos. Ele é quem me acorda todos os dias, brinca com os meus sonhos, me acaricia as mãos, ordena coisas às flores, planta jardins no meio do cimento, ordenha vacas, retira os espinhos e compõe lindas cantigas de ninar. Depois que o achei perdido por ai, me encontrei de novo.