Choro que não cabe no peito. Palavras afiadas e mesquinhas. Roupas velhas e amarrotadas. Saudade ofensiva. Falsidade. Culpa. Medo. Apego. Zelo. Falta de tempo.
Só por hoje me deixei levar.
Eu não sorri pra ninguém, não me levantei para outro sentar. Não reparei seus olhos ou seu cabelo. Não segui a dieta. Não chamei atenção. Não pedi abraço esperando calma. Nem arredei o pé de onde já estava.
Hoje cortei a corda bamba. Dei de ombros. Fingi que não existia. Não te contei novidades, nem esperei você chegar.
Hoje não pedi a sua mão e nem o seu amor.
Não pedi mesmo, eu não merecia. Hoje eu senti falta de mim, de viver com aquele sentimento que dá medo e vem me encorajar.
Hoje eu simplesmente fiquei de costas, que é pra ir embora sem sair do meu lugar.
Aos poucos vou envelhecendo, a raiz do meu cabelo já começa a demonstrar uns poucos fios brancos. As olheiras mostram noites mal dormidas e cansaço. As cicatrizes, os furos, os velhos medos. A falta de nexo, a dificuldade de raciocínio, a fraqueza e franqueza, os beijos repetidos, as palavras copiadas e o caráter já formado.
Eu estou envelhecendo, por dentro. Pessoas já não fazem meu estilo, não tenho paciência para discussões vãs, não me interessa a situação política do meu país, não me atenho mais às coisas banais, não desperdiço meu sangue ou meu tempo, não dou à mínima, não me alimento direito, não perco tempo no telefone, não leio revistinhas adolescentes, nem me preocupo com antigos amores, não me surpreendo com atitudes, nem ouço o coaxar dos sapos.
Eu envelheci rápido demais em três meses. Andei por outros caminhos. Conheci outras pessoas. Poupei-me de velhos hábitos. Reli livros antigos. Experimentei outros sabores.
Presenciei novas histórias. Enxerguei com outros olhos.
Fui envelhecendo aqui dentro, sendo a melhor pessoa para mim (mesma), por isso eu não peço que entendam, não peço que perdoem minha ausência, minhas palavras afiadas, ou descrença em algumas pessoas... Eu apenas não perco mais tempo com tantas preocupações.
"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive ".
Eu sempre quis ser um monte de coisas. Enfermeira, colunista, assistente voluntária.
Já quis ser psicóloga, historiadora, atriz, fotógrafa e uma porrada de outras coisas
que não dão muito dinheiro (risinhos cínicos). Eu já me matriculei em coisas que eu não sabia nem o nome, já tentei desenho, canto, judô, natação. Comecei teatro, balé, jazz, aula de violão. Também já montei blog para revistas, tentei cartoo, lambada e atletismo. Fiz aula de guitarra, ginástica olímpica e oficinas de criação. Entrei numa academia, no sapateado e no samba que é bom. Hoje, abandonei todas essas atividades. Estou meio velha (convenhamos!), não tenho mais pique para tanta coisa, ando cheia de bloqueios criativos, eu nem sei mais o que é coordenação motora, eu perco a paciência fácil e a faculdade me toma todo o tempo.
(Intervalo e silêncio durante quinze segundos, e logo o barulho do telefone sendo colocado no gancho.)
Opção número 2:
Perca de noção do tempo, do espaço. Mãos trêmulas. Falta de ar. Balanço de pernas e estralar de dedos. Coração acelerado e ânsia de vômito. Banheiro. Cadê o banheiro?
Maldito bolo de chocolate com chá!
-Como assim você vai embora? Você não pode ir! Por favor. Não vá embora.
(chorando, me arrastando pelo chão e colocando as mãos na cabeça).
- Estou indo, já arrumei as malas. Veja-as ali, do lado da cama. Não dá mais, eu não agüento mais esse lugar. Esse inferno. Essa confusão. Me deixa seguir a minha vida.
- Eu sabia, foi aquela mulher, não foi? A dos poemas e versos. A que você passava horas no telefone e no escritório, sabe-se lá Deus o que estavam fazendo!
- Tá vendo. Minha Nossa Senhora! Você complica tudo. Não tem nada a ver com a Laura. Tem a ver com você, comigo. Não nascemos para isso. Acabou. Acabou faz um bom tempo e você finge que não vê.
(Pegando uma fita e amarrando o cabelo. Limpando lágrimas com as costas da mão)
- Eu não consigo acreditar nisso. Você quer ir? Então vá ta vendo aquela porta? Saí logo daqui. Não! Desculpa-me. Por favor, não vá embora.
(arrastando ele, puxando-o pela gola da blusa, empurrando malas, trancando portas)
-Eu já fui há muito tempo, você é que não percebeu.
(Ranger da porta se batendo.)
Opção número 3:
- Frango?
- Não! Camarão.
- A gente não combina. [Não temos razão para continuar.]