
Quero um balão pra poder subir (...)
Há quem tenha marcas na parede de casa, de todas as espécies, achatadas, redondas ou em forma espiral. Há quem acredite que elas pertenceram aos antigos donos, aos rastros de caracol ou às mariposas esmagadas na calada da noite. Seja de quem for a culpa, há sempre uma marca. Como de praxe, existe uma no meu quarto, bem ao lado do ventilador de teto. Penso que ela seja mais bizarra que o normal, com alguns contornos esdrúxulos e cores mortas (poeira, talvez?). De vez em quando, ela aparece em outros tamanhos. A primeira vez que a vi, foi no dia em que completei doze anos de idade. No início eu me assustava com a marca, com a baleia (pra ser exata), pronta pra me dar um abraço. Eu corria para a cama dos meus pais, aquela época o bicho papão estava no auge, acabei associando-a a ele. Depois de um tempo ela já não me parecia tão ameaçadora e agressiva. Conversávamos por oras a fio, ou melhor, eu falava enquanto ela me ouvia. Nesse laço intrínseco, acabei me esquecendo que ela não passava de uma marca (ou mancha) qualquer, que me visitava sempre que podia. Hoje, com meus quase dezenove anos, a marca está desaparecendo.
(...) E não preciso dizer que estou indo dormir na cama com os meus pais.


Sentados à mesa, fim de tarde, com um cara no canto tocando João Gilberto. Cá estávamos nós, pernas inquietas, intertextualidade de filmes, livros e piadas (coisas que só a gente consegue fazer). Depois de tudo isso, já meio alterados (eu confesso), surgiu a pergunta:
-Você já traiu?
- Ahn? – respondi como se quisesse fugir, embora conhecesse bem a figura. Não se contentaria com caras e bocas e um possível sorriso sinistro.
- A pergunta é simples. Você já traiu alguém? – tornou a dizer.
- Pergunta simples para uma resposta complicada. - falei freneticamente – Eu não gosto muito de conversar a respeito, mas já que estamos aqui, eis o fato:
Sim, eu já traí.
(Poucos segundos de silêncio)
- Deixe-me contar as minhas nuances, antes que você piore ainda mais a imagem que tem de mim – disse com um sorriso lerdo – Acho que todo mundo já cometeu esse (e outros pecados). Eu então... faço-o com certa constância. Já me traí várias vezes. Deixei de lado princípios que tinha, coisas que acreditava. Chorei por outra pessoa no colo de alguém com quem eu namorava. Traí meu time de futebol (isso na época que eu gostava de futebol), traí a confiança dos meus pais e etc. Traí sim e também fui traída.
(Ele fez cara de quem não gostou muito e de quem ainda esperava o desfecho da história)
- O quê? Eu já te contei essa né. Vamos virar a página. Hoje já não tem importância, importava antes, quando existia amor. – continuei – Agora você se lembrou né? Eu lá em cima do edifício, toda compenetrada e você... Você me aparece do nada dizendo:
- Calma amiga. Lembre-se que você tem chifres e não um par de asas.
(Risos escandalosos)
- Você me salvou naquele dia – disse em voz alta – Se você não tivesse traído sua namorada e me procurado para contar o feitio... Deixa quieto.
A noite vinha se apresentando. E “Doralice eu bem que te disse, essa embrulhada em que vou me meter [...]” tocava ao fundo embalando o final da conversa. Brindamos. Afinal amigo também é um pouco filho da puta.