segunda-feira, 19 de julho de 2010



Quero um balão pra poder subir (...)

domingo, 11 de julho de 2010

Confissões e Virginia Woolf


Há quem tenha marcas na parede de casa, de todas as espécies, achatadas, redondas ou em forma espiral. Há quem acredite que elas pertenceram aos antigos donos, aos rastros de caracol ou às mariposas esmagadas na calada da noite. Seja de quem for a culpa, há sempre uma marca. Como de praxe, existe uma no meu quarto, bem ao lado do ventilador de teto. Penso que ela seja mais bizarra que o normal, com alguns contornos esdrúxulos e cores mortas (poeira, talvez?). De vez em quando, ela aparece em outros tamanhos. A primeira vez que a vi, foi no dia em que completei doze anos de idade. No início eu me assustava com a marca, com a baleia (pra ser exata), pronta pra me dar um abraço. Eu corria para a cama dos meus pais, aquela época o bicho papão estava no auge, acabei associando-a a ele. Depois de um tempo ela já não me parecia tão ameaçadora e agressiva. Conversávamos por oras a fio, ou melhor, eu falava enquanto ela me ouvia. Nesse laço intrínseco, acabei me esquecendo que ela não passava de uma marca (ou mancha) qualquer, que me visitava sempre que podia. Hoje, com meus quase dezenove anos, a marca está desaparecendo.

(...) E não preciso dizer que estou indo dormir na cama com os meus pais.

Toc toc


Quando dei por mim as coisas já tinham acontecido, sem muita explicação. Eu já estava desnorteada, trêmula e com 110 batimentos cardíacos por minuto. Assim que o amor voltou a me pregar peças (nessa ladainha de ir e vir sem pedir permissão), a vizinhança teve muito que comentar. Constantemente ele me acordava de noite jogando pedrinhas na minha janela.
Eu gritava: - Seu moleque! Vá acordar a mãe.
Era a única maneira de voltar a dormir. Outro dia, sem querer, tropecei sobre ele na calçada de casa. Envergonhada, pedi um milhão de desculpas e dei de costas. Meses depois, quando eu imaginava que ele tivesse desaparecido ou sido adotado, a campainha começou a tocar. O tal do amor estava lá de novo, dessa vez tinha nos olhos uma beleza que eu desconhecia. Estampou um meio sorriso e me perguntou:
- Moça, eu posso entrar?
Desde então, nunca mais me deixou.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

- Afogando as mágoas?

-Não! Estou curando as feridas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Insônia


No relógio o ponteiro quase marca meia noite. Eu não durmo, essa coisa que me cutuca o pé do ouvido não me deixa dormir. E quando não é isso, é aquilo e aquilo outro. Eu curtia os meus fins de semana sem medo, sem ter que fazer o escarcéu dentro de mim a cada oito horas. Agora não, é sempre essa linha limítrofe, que não me permite chegar ao outro lado. Em cima da mesa os objetos usados para a travessia, um velho copo com dose dupla de uísque, cigarros baratos, guardanapos sujos e rabiscados com lembretes do dia. Tudo sem cor, meio morto, meio banal. Palavras desgastadas, camisa mal passada e roída na gola. Cabeça cheia de pensamentos importunos. Nada de pregar os olhos. E não me venha com costuras, eu não me dou bem com agulhas e linhas!

domingo, 6 de junho de 2010


Levara alguns minutos abrindo à porta. A chave se encrencara dentro e a maçaneta nem se movia. Enquanto isso, as lágrimas rolavam soltas sobre a face cansada. Estava fugindo do mundo, há três meses juntava dinheiro para a passagem de ida. Não tivera tempo de se despedir dos amigos e daqueles que suponha ter algum tipo de vínculo. Não era importante, depois mandaria cartões postais de onde estivera e pluff!

terça-feira, 30 de março de 2010

Um barzinho, um violão.


Sentados à mesa, fim de tarde, com um cara no canto tocando João Gilberto. Cá estávamos nós, pernas inquietas, intertextualidade de filmes, livros e piadas (coisas que só a gente consegue fazer). Depois de tudo isso, já meio alterados (eu confesso), surgiu a pergunta:

-Você já traiu?

- Ahn? – respondi como se quisesse fugir, embora conhecesse bem a figura. Não se contentaria com caras e bocas e um possível sorriso sinistro.

- A pergunta é simples. Você já traiu alguém? – tornou a dizer.

- Pergunta simples para uma resposta complicada. - falei freneticamente – Eu não gosto muito de conversar a respeito, mas já que estamos aqui, eis o fato:

Sim, eu já traí.

(Poucos segundos de silêncio)

- Deixe-me contar as minhas nuances, antes que você piore ainda mais a imagem que tem de mim – disse com um sorriso lerdo – Acho que todo mundo já cometeu esse (e outros pecados). Eu então... faço-o com certa constância. Já me traí várias vezes. Deixei de lado princípios que tinha, coisas que acreditava. Chorei por outra pessoa no colo de alguém com quem eu namorava. Traí meu time de futebol (isso na época que eu gostava de futebol), traí a confiança dos meus pais e etc. Traí sim e também fui traída.

(Ele fez cara de quem não gostou muito e de quem ainda esperava o desfecho da história)

- O quê? Eu já te contei essa né. Vamos virar a página. Hoje já não tem importância, importava antes, quando existia amor. – continuei – Agora você se lembrou né? Eu lá em cima do edifício, toda compenetrada e você... Você me aparece do nada dizendo:

- Calma amiga. Lembre-se que você tem chifres e não um par de asas.

(Risos escandalosos)

- Você me salvou naquele dia – disse em voz alta – Se você não tivesse traído sua namorada e me procurado para contar o feitio... Deixa quieto.

A noite vinha se apresentando. E “Doralice eu bem que te disse, essa embrulhada em que vou me meter [...]” tocava ao fundo embalando o final da conversa. Brindamos. Afinal amigo também é um pouco filho da puta.